O que será preciso para construir uma base humana em Marte
Explicações

O que será preciso para construir uma base humana em Marte

Por Space Unpacked Editorial

Enviar astronautas para Marte já não é apenas uma questão de foguetões e ambição. A parte mais difícil começa depois do lançamento: sobreviver à viagem pelo espaço profundo, pousar à superfície a massa de um posto avançado inteiro e, depois, manter uma tripulação viva e produtiva num lugar com uma atmosfera fina de dióxido de carbono, radiação intensa e sem infraestruturas prontas a usar. Por isso, a forma mais útil de encarar uma primeira base em Marte é como um desafio de arquitectura de missão.

Marte continua a ser o alvo distante mais prático para a exploração humana porque combina riqueza científica com recursos locais utilizáveis. A sua atmosfera é maioritariamente dióxido de carbono, uma potencial matéria-prima para produzir oxigénio, enquanto o gelo enterrado oferece a perspectiva de água para beber, para a indústria e, eventualmente, para a produção de combustível. Nesse sentido, a conhecida ideia “da Lua a Marte” é menos um slogan do que uma cadeia lógica: usar missões mais próximas para reduzir riscos, testar hardware e aprender como os humanos operam longe da Terra antes de comprometer tripulações com o Planeta Vermelho.

Os “pioneiros” já existem. O enquadramento Artemis da NASA foi concebido como um campo de provas para operações de exploração de longa duração. No próprio Marte, os rovers Curiosity e Perseverance da NASA forneceram algo ainda mais valioso do que inspiração: medições concretas e demonstrações tecnológicas reais. Se os humanos hão-de viver lá, estes batedores robóticos estão a mostrar onde estão, de facto, os maiores obstáculos.

A viagem para Marte começa com o problema da radiação

A viagem não é um sprint curto. Uma tripulação passaria meses no espaço profundo, para lá do casulo protector do campo magnético da Terra. Um dos avisos mais claros vem do Radiation Assessment Detector no rover Curiosity, da missão Mars Science Laboratory da NASA, que iniciou medições detalhadas na superfície marciana a 7 de Agosto de 2012. Ao longo de cerca de 300 dias de observações durante o máximo solar, o instrumento caracterizou o ambiente de radiação que os astronautas enfrentariam depois de aterrar.

Most Powerful Rockets

O número-chave do briefing editorial capta a dimensão do problema: cerca de 0,67 milissieverts por dia na superfície marciana. Isto é importante porque as operações à superfície são apenas uma parte do orçamento de exposição; a viagem de ida e volta acrescenta ainda mais. As medições do Curiosity foram enquadradas explicitamente como uma âncora para avaliar os perigos para futuras missões humanas, ao mesmo tempo que ajudam os cientistas a modelar como a radiação afecta o subsolo superficial, a sobrevivência microbiana e a preservação de bioassinaturas orgânicas.

Então, como se reduz um perigo que não pode simplesmente ser desligado? Uma resposta é a velocidade. Quanto menos tempo uma tripulação passar no espaço interplanetário, menor será a dose cumulativa. É por isso que os estudos sobre propulsão térmica nuclear e propulsão solar-eléctrica continuam a ressurgir no planeamento sério para Marte. Transferências mais rápidas não resolveriam a radiação por completo, mas poderiam reduzir uma das restrições mais teimosas da missão.

Desafio da missão O que mostram os actuais pioneiros
Radiação à superfície O Radiation Assessment Detector do Curiosity mediu o ambiente de radiação em Marte, cerca de 0,67 mSv/dia no valor referido no briefing
Utilização da atmosfera local O MOXIE demonstrou a produção de oxigénio a partir do ar de Marte
Sistemas de sobrevivência em circuito fechado O MELiSSA da ESA desenvolve conceitos de suporte de vida regenerativo que reciclam ar, água e resíduos
Operações de exploração O Artemis serve como campo de provas a curto prazo para missões de longa duração e redução de riscos

Aterrar uma base em Marte significa entregar um posto avançado antes das pessoas

Mesmo que o problema do trânsito seja mitigado, Marte coloca outro teste implacável: entrada, descida e aterragem com massas de carga muito acima do que as missões robóticas conseguiram entregar até agora. Uma expedição humana não pode chegar levando apenas um payload científico compacto. Precisa de habitats, sistemas de energia, mobilidade à superfície, consumíveis e margens de segurança medidas não em quilogramas, mas em dezenas de toneladas.

Isto altera a sequência da exploração. Uma primeira base tripulada teria quase de certeza de ser construída por etapas, com energia, abrigos e provisões entregues antes da chegada dos astronautas. A pré-instalação não é apenas prudente; é fundamental. Se um habitat, uma unidade de energia ou um abastecimento crítico falhar depois de a tripulação chegar, o resgate não é uma opção realista como poderia ser em órbita baixa da Terra.

life on mars

É aqui que a Lua volta a ser relevante. As operações da era Artemis podem ajudar a validar procedimentos de faseamento, montagem de carga e trabalho à superfície de longa duração. No entanto, Marte é menos tolerante. A sua atmosfera é suficientemente densa para complicar a descida, mas demasiado fina para tornar fácil a aterragem de cargas pesadas. Poeira, terreno acidentado e longos atrasos nas comunicações significam que a base à superfície tem de ser concebida para autonomia desde o início.

Depois há a energia. Um posto avançado em Marte não pode depender de bom tempo. Energia robusta, durante todo o ano, é essencial para suporte de vida, controlo térmico, comunicações e processamento de recursos – por isso, os sistemas de fissão à superfície aparecem tão frequentemente nos conceitos sérios de bases. A energia solar pode ter um papel, mas em Marte a margem para fraqueza prolongada é estreita.

Viver em Marte depende de produzir localmente ar, água e protecção

O progresso mais encorajador tem vindo de tecnologias que tratam Marte não só como um perigo, mas também como uma fonte de matérias-primas. A experiência MOXIE da NASA mostrou que é possível produzir oxigénio a partir da atmosfera marciana – uma demonstração impressionante, porque o oxigénio é necessário tanto para respirar como, mais tarde, para propelente. Transformar o dióxido de carbono local em algo utilizável pelos astronautas é o tipo de passo que faz uma base parecer menos fantasia e mais engenharia.

A água é o outro pilar. O gelo enterrado é central para o argumento a favor de uma presença sustentada, mas a prospecção é determinante: os exploradores precisarão de saber de forma fiável onde estão as reservas acessíveis e quão difícil é extraí-las. Uma vez obtida, essa água torna-se a espinha dorsal da habitação, higiene, agricultura e química industrial.

life on mars

O suporte de vida em circuito fechado é igualmente crucial. O programa MELiSSA da ESA tem perseguido há muito sistemas regenerativos que reciclam ar, água e resíduos – exactamente o tipo de abordagem biorregenerativa de que as missões a Marte vão precisar. Num mundo em que cada quilograma lançado da Terra tem um custo enorme, descartar material útil é um luxo que nenhuma base pode permitir.

E, no entanto, as lacunas finais são preocupantes. As estratégias de blindagem têm de proteger as tripulações da radiação à superfície e também em trânsito. A poeira e os perigos do terreno podem ameaçar a maquinaria e a saúde humana. A gravidade parcial continua a ser uma questão médica por resolver para estadias longas. O que acontece ao corpo após meses ou anos na gravidade mais fraca de Marte? Ainda não sabemos o suficiente.

Esse é o retrato real de uma primeira base em Marte: não uma única descoberta decisiva, mas uma cadeia delas. Transporte mais rápido, sistemas de aterragem mais seguros, carga pré-posicionada, energia fiável, oxigénio a partir do ar, água a partir do gelo e suporte de vida que se aproxime do fecho ecológico. Peça a peça, a arquitectura está a ganhar forma. O fascínio de Marte não diminuiu, mas hoje é acompanhado por algo igualmente cativante: um conjunto de ferramentas em crescimento para lá chegar e lá permanecer.